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Musicoterapia com pessoas idosas - A musicalidade da presença

Existem muitas maneiras de estar presente. Às vezes, a presença chega como palavra. Outras vezes, como gesto. Um olhar. Uma respiração. Um pequeno movimento das mãos. Um som quase imperceptível. Um silêncio.


Na musicoterapia com pessoas idosas, tenho aprendido que escutar alguém talvez exija muito mais do que perceber aquilo que essa pessoa consegue dizer, lembrar ou realizar. É preciso aprender a escutar como ela está ali. Porque existe musicalidade também nisso. Existe ritmo na maneira como alguém respira. Existe tempo na maneira como alguém responde. Existe intensidade em um olhar. Existem pausas. Repetições. Variações. Expectativas. Pequenos acontecimentos que talvez não sejam reconhecidos imediatamente como música, mas que podem tornar-se profundamente musicais quando outra pessoa os escuta e entra em relação com eles.


Talvez possamos chamar isso de musicalidade da presença.

Não uma musicalidade que depende de saber cantar.

Não uma musicalidade medida pela capacidade de tocar um instrumento.

Não uma musicalidade que precisa necessariamente produzir uma obra musical.

Mas uma musicalidade que pertence à própria maneira humana de estar no mundo e de entrar em relação.


O que estamos escutando?


Quando trabalhamos com pessoas idosas, especialmente aquelas que atravessam transformações cognitivas, motoras, comunicacionais ou relacionadas às diferentes formas de demência, existe o risco de organizarmos nossa percepção a partir daquilo que esperamos que aconteça.


Esperamos uma resposta. Esperamos uma palavra. Esperamos que determinada música seja reconhecida. Esperamos que a letra de uma canção seja lembrada. Esperamos que um instrumento seja tocado. Esperamos uma reação que confirme que alguma coisa aconteceu.


Mas e quando aquilo que acontece não corresponde ao que esperávamos?


Talvez alguém não cante. Mas respire de outra maneira quando a música começa. Talvez não consiga recordar o nome da canção. Mas seus olhos encontrem os nossos exatamente quando determinada melodia aparece. Talvez não toque o instrumento que colocamos em suas mãos. Mas seus dedos realizem um pequeno movimento acompanhando o pulso musical. Talvez nenhuma palavra seja dita. E, ainda assim, alguma coisa aconteça.


Uma das tarefas da escuta clínica talvez seja justamente esta:

não deixar que aquilo que esperávamos encontrar nos impeça de perceber aquilo que está acontecendo.


A música que já está acontecendo


Podemos imaginar a musicoterapia como um espaço no qual levamos música para alguém. Tocamos uma canção. Apresentamos um instrumento. Propomos um ritmo. Criamos uma experiência sonora. Mas existe outra possibilidade. Podemos entrar no encontro perguntando: que música já está acontecendo aqui?


Talvez exista um ritmo na respiração daquela pessoa.

Talvez exista uma pequena melodia em sua vocalização.

Talvez exista uma pulsação em um movimento repetido das mãos.

Talvez exista uma pausa que precise permanecer pausa.

Talvez exista um silêncio que não precise ser imediatamente preenchido.


Quando começamos a escutar dessa maneira, algo se transforma. A pessoa deixa de ser apenas alguém que recebe uma proposta musical. Ela passa a participar da própria construção da música. Um movimento pode transformar-se em pulso. Uma vocalização pode encontrar uma nota. Uma respiração pode modificar o tempo. Um gesto pode sugerir uma pausa. Um olhar pode indicar continuidade. O musicoterapeuta escuta.

Responde. Espera. Propõe. Recua. Sustenta. E aquilo que parecia apenas um pequeno gesto pode tornar-se parte de uma experiência musical compartilhada.


A música deixa de acontecer somente para alguém. Passa a acontecer com alguém.


Quando duas presenças se escutam


Talvez seja justamente aí que a música revele uma de suas dimensões mais profundamente relacionais. Ela não está apenas no instrumento. Não está apenas na canção. Não está apenas no terapeuta. E tampouco está exclusivamente na pessoa atendida. Ela acontece entre. Entre um gesto e uma resposta. Entre um som e uma espera. Entre uma respiração e outra. Entre aquilo que alguém oferece e aquilo que outra pessoa consegue escutar. Esse espaço entre duas presenças pode tornar-se um território musical. E talvez uma das tarefas mais delicadas do musicoterapeuta seja aprender a não ocupá-lo inteiramente.


Nem sempre precisamos tocar mais.

Nem sempre precisamos estimular mais.

Nem sempre precisamos produzir uma resposta.


Às vezes, precisamos apenas criar condições para que alguma coisa possa aparecer. Isso também exige musicalidade do terapeuta. Perceber o tempo. Sustentar a espera.

Reconhecer uma mudança mínima. Não antecipar uma resposta. Saber acompanhar.

Saber interromper. Saber permanecer. Nesse sentido, a musicalidade da presença não pertence apenas à pessoa idosa. Ela nasce do encontro.


O pequeno também é acontecimento


Há algo que a clínica com pessoas idosas continuamente me ensina: o pequeno pode ser imenso.


Um olhar que permanece por alguns segundos.

Uma mão que procura outra mão.

Uma nota cantada quase sem voz.

Um movimento que acompanha discretamente uma canção.

Um sorriso.

Uma respiração mais profunda.

Um instante de humor.

Um silêncio compartilhado.


Quando estamos procurando grandes acontecimentos, talvez não consigamos perceber essas pequenas transformações. Mas a vida também acontece nessa escala. E a música pode nos ensinar a escutá-la. Porque a música conhece o valor de uma pausa. Conhece a importância de uma pequena variação. Conhece aquilo que acontece entre um som e outro. Talvez a escuta clínica também precise aprender isso.


A presença não precisa provar nada


Existe ainda uma dimensão que considero fundamental. Uma pessoa não precisa demonstrar produtividade para que sua presença tenha valor. Não precisa cantar corretamente. Não precisa lembrar. Não precisa responder no tempo esperado. Não precisa realizar aquilo que imaginamos que deveria conseguir realizar. Isso não significa abandonar objetivos terapêuticos, possibilidades de desenvolvimento ou processos de estimulação. Significa apenas reconhecer que existe alguém antes de qualquer objetivo.

Alguém cuja presença não pode ser reduzida àquilo que consegue ou deixa de conseguir fazer. Esse deslocamento modifica profundamente o encontro. Em vez de perguntarmos apenas: O que ainda podemos estimular? Talvez possamos também perguntar: O que ainda podemos escutar? E talvez seja justamente dessa pergunta que outras possibilidades de cuidado possam nascer.


A musicalidade da presença


No Caderno anterior, Memórias que permanecem, chegamos à ideia de que uma canção nem sempre devolve uma lembrança. Às vezes, ela devolve uma presença. Talvez possamos agora dar um passo adiante. Quando essa presença aparece, o que fazemos com ela? Nós a reconhecemos? Nós conseguimos acompanhá-la? Conseguimos escutar seus ritmos, seus silêncios, seus gestos, suas intensidades e suas pequenas transformações? Conseguimos encontrar música onde antes talvez enxergássemos apenas ausência? A musicoterapia com pessoas idosas pode ser também um exercício dessa disponibilidade.


Não apenas produzir música. Não apenas utilizar música. Mas escutar musicalmente a presença de alguém. Escutar aquilo que ainda pulsa. Aquilo que responde. Aquilo que espera. Aquilo que se transforma. Aquilo que permanece. Talvez a musicalidade não seja somente alguma coisa que possuímos. Talvez seja também uma maneira de existirmos em relação. E talvez uma das tarefas mais bonitas da musicoterapia seja justamente criar condições para que essa musicalidade possa ser percebida, acolhida e compartilhada. Porque antes de perguntarmos o que uma pessoa ainda consegue fazer com a música, talvez possamos perguntar: que música podemos escutar em sua maneira de estar presente? E, para isso, talvez seja preciso começar por algo muito simples. Estar presente também.

 
 
 

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