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Musicoterapia com pessoas idosas - Memórias que permanecem

Existem lembranças que desaparecem lentamente.


Nomes. Datas. Percursos. Histórias. Rostos.


Quem convive com pessoas idosas, especialmente aquelas que vivem com diferentes formas de demência, conhece de perto a delicadeza dessas transformações. Aos poucos, algumas lembranças tornam-se menos acessíveis. Certas palavras parecem escapar. Episódios importantes deixam de ser narrados com a mesma clareza. Em muitos momentos, a memória passa a ser percebida apenas a partir daquilo que deixou de permanecer.


Essa experiência costuma ser profundamente dolorosa.


Para quem vive essas transformações. Para quem ama. Para quem cuida.


Mas talvez possamos nos aproximar de outra pergunta.


O que permanece quando algumas memórias deixam de permanecer?


Talvez a primeira mudança necessária seja ampliar aquilo que compreendemos por memória.


É comum associarmos memória à capacidade de recordar acontecimentos, nomes, lugares ou informações. Essa dimensão permanece profundamente importante. Ela participa da construção da nossa história, da nossa identidade e das narrativas que organizam a vida cotidiana.


Entretanto, a experiência humana parece revelar que a memória é maior do que aquilo que conseguimos recordar conscientemente.


Existem memórias que permanecem habitando os gestos, os afetos, as formas de acolher outra pessoa, os ritmos do corpo, as canções aprendidas ao longo da vida, os modos de sorrir e as maneiras de olhar.


Talvez recordar seja apenas uma das formas da memória.

É justamente nesse ponto que a experiência musical revela uma de suas maiores singularidades.


Uma canção pode ser reconhecida mesmo quando seu nome já não é lembrado.


Um ritmo pode continuar sendo acompanhado mesmo quando faltam palavras para explicar aquilo que está acontecendo.


Uma melodia pode despertar um sorriso antes mesmo que uma lembrança consiga ser narrada.


Não porque a música possua um poder mágico sobre a memória.


Mas porque ela participa de formas de experiência que continuam vivas mesmo quando determinadas capacidades começam a transformar-se.


A música não exige apenas que recordemos. Ela permite que permaneçamos em relação.


Essa perspectiva torna-se especialmente significativa quando pensamos nas pessoas que vivem com a doença de Alzheimer e outras formas de demência.


À medida que a memória autobiográfica se modifica, é comum que a própria identidade da pessoa passe a ser percebida quase exclusivamente a partir daquilo que foi perdido.


A experiência clínica, entretanto, convida-nos a permanecer atentos a outra realidade. Mesmo quando determinadas lembranças deixam de ser acessíveis, continuam existindo possibilidades de encontro.


Continuam existindo afetos.

Gestos.

Silêncios compartilhados.

Ritmos.

Improvisações.

Canções reconhecidas.

Momentos de humor.

Experiências de presença.


A pessoa continua existindo muito além daquilo que consegue recordar.


Nesse horizonte, a musicoterapia deixa de compreender a memória apenas como uma função a ser estimulada.


Ela passa a interessar-se também pelas formas de presença que continuam sendo possíveis.


Às vezes, uma canção não devolve uma lembrança. Ela devolve um encontro. Outras vezes, não devolve uma história, mas um sorriso. Um olhar. Uma respiração compartilhada. Uma experiência de reconhecimento.


A tarefa da musicoterapia talvez não esteja em recuperar todas as memórias. Talvez esteja em reconhecer e cuidar das diferentes formas pelas quais a memória continua viva.


Quando compreendemos a memória apenas como capacidade de recordar informações, corremos o risco de deixar de perceber muitas formas pelas quais continuamos existindo em relação.


A experiência musical nos lembra que recordar pode ser profundamente importante. Mas permanecer em encontro talvez seja ainda mais essencial.


É nesse horizonte que venho compreendendo a musicoterapia com pessoas idosas: não apenas como uma prática voltada à estimulação da memória, mas como um cuidado comprometido com tudo aquilo que continua possibilitando presença, relação, reconhecimento e humanidade.


Porque, às vezes, uma canção não devolve uma lembrança.


Ela devolve uma presença.



 
 
 

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