Musicoterapia com pessoas idosas - Criatividade ao longo da vida
Quando pensamos em criatividade, talvez uma das primeiras imagens que apareçam seja a da infância. A criança que brinca, inventa mundos, transforma objetos, cria histórias e experimenta possibilidades. Também costumamos associar a criatividade à juventude, às descobertas, aos projetos e a tudo aquilo que parece estar começando.
Mas em que momento da vida deixamos de imaginar alguém como uma pessoa criativa? E por quê?
Existe uma maneira bastante comum de olhar para o envelhecimento que coloca a pessoa idosa principalmente em relação com aquilo que passou. Perguntamos sobre suas histórias, suas lembranças, as músicas que fizeram parte de sua vida, os lugares onde esteve e tudo aquilo que construiu ao longo dos anos. Há algo profundamente importante nesse reconhecimento da trajetória, mas uma vida longa não é feita somente daquilo que já aconteceu.
Ainda existem coisas que nunca aconteceram.
Ainda pode existir uma música que nunca foi tocada, uma história que nunca foi contada daquela maneira, um instrumento que nunca foi experimentado, uma brincadeira que ainda não aconteceu, uma resposta que ninguém poderia prever. Ainda existe possibilidade de criação.
Talvez seja importante, então, deslocarmos uma pergunta. Em vez de perguntarmos apenas o que permanece daquilo que uma pessoa foi capaz de fazer, podemos também perguntar: o que ainda pode nascer a partir da pessoa que está aqui agora?
Na musicoterapia, essa pergunta pode transformar profundamente o encontro.
Criatividade não pertence a uma idade
Talvez tenhamos aprendido a organizar a própria vida em etapas muito definidas. Há um tempo para aprender, um tempo para produzir, um tempo para realizar e, depois, um tempo para recordar aquilo que foi vivido.
Mas a experiência humana parece ser menos organizada do que isso.
Continuamos aprendendo enquanto envelhecemos. Continuamos encontrando pessoas que nunca havíamos encontrado, escutando músicas que não conhecíamos, formulando pensamentos que nunca havíamos pensado e respondendo a situações que nunca haviam acontecido.
Continuamos sendo atravessados pelo mundo.
E enquanto algo pode nos atravessar, também existe a possibilidade de respondermos de uma maneira que ainda não existia.
Talvez possamos compreender a criatividade justamente nesse espaço. Não apenas como a capacidade de produzir uma obra original, mas como uma disponibilidade para combinar, transformar, experimentar e produzir respostas diante daquilo que acontece.
Nesse sentido, criatividade não pertence exclusivamente ao artista, à criança ou à pessoa que possui alguma habilidade especial.
Ela participa da própria experiência de estar vivo.
E isso não deixa de existir simplesmente porque envelhecemos.
Criar não é necessariamente produzir
Existe também uma ideia de criatividade muito ligada à produção. Criamos uma música, um desenho, um poema, uma história, um objeto. Há algo concreto que permanece depois do ato criativo e que podemos reconhecer como resultado.
Mas nem toda criação precisa deixar um produto. Às vezes, aquilo que foi criado existiu apenas durante alguns segundos.
Uma pequena variação em um ritmo.
Uma maneira diferente de tocar um instrumento.
Uma palavra que apareceu no meio de uma canção.
Um gesto inesperado.
Uma brincadeira.
Uma mudança de andamento.
Uma pausa que ninguém havia planejado.
Nada disso precisa transformar-se em obra para que tenha existido como criação.
Na musicoterapia, essa perspectiva é especialmente importante porque nos permite retirar a criatividade do campo do desempenho. Não precisamos perguntar se alguém consegue criar bem, se aquilo que produziu é musicalmente elaborado ou se existe um resultado que possa ser apresentado a outra pessoa.
Podemos simplesmente perceber que alguma coisa aconteceu e que, antes daquele instante, ela não existia daquela maneira. Criar pode ser justamente isso: fazer aparecer uma possibilidade.
Quando não sabemos o que acontecerá
Talvez a improvisação musical seja um dos lugares mais evidentes dessa experiência.
Duas pessoas estão diante uma da outra. Há alguns instrumentos disponíveis. Uma delas toca um som e a outra responde. O primeiro som retorna, talvez um pouco diferente. Aparece um ritmo, depois uma pausa. Algo começa a adquirir forma, mas nenhuma das duas pessoas sabe exatamente para onde aquilo irá.
Existe uma dimensão muito bonita nesse não saber. Porque criar também exige algum espaço para o desconhecido.
Se tudo já está determinado, podemos executar, repetir ou reproduzir. A criação começa quando existe alguma abertura para que o acontecimento participe daquilo que estamos fazendo.
Para uma pessoa idosa, experimentar essa abertura pode assumir muitas formas. Talvez seja tocar pela primeira vez um instrumento que nunca conheceu. Talvez seja inventar uma pequena melodia, modificar espontaneamente uma canção conhecida ou produzir um som simplesmente para descobrir o que acontecerá depois.
Não é necessário saber música para participar desse território.
É necessário apenas que exista alguma possibilidade de ação e alguém disponível para escutá-la.
A criatividade pode nascer entre nós
Isso nos leva a outra questão importante: talvez a criatividade não esteja somente dentro de uma pessoa. Ela pode nascer entre pessoas. Um som provoca outro som. Um gesto modifica aquilo que o musicoterapeuta estava tocando. Uma pausa faz com que ambos esperem. Um olhar transforma o tempo da música. Aquilo que surge não pertence inteiramente a nenhum dos dois porque só pôde existir a partir da relação.
Nesse sentido, a criatividade também pode ser compreendida como um acontecimento relacional.
Talvez alguém não iniciasse determinada ação sozinho, mas diante de uma resposta musical encontra uma nova possibilidade. O terapeuta, por sua vez, também não sabe antecipadamente aquilo que irá tocar, porque sua música está sendo transformada pelo que recebe da outra pessoa.
Os dois participam da criação.
Essa perspectiva pode ser particularmente significativa quando acompanhamos pessoas que vivem diferentes formas de demência ou transformações importantes em suas possibilidades cognitivas, motoras ou comunicacionais. Se procuramos criatividade apenas em ações autônomas, intencionais e claramente organizadas, talvez deixemos de perceber muitas formas de criação que acontecem na relação.
Às vezes, uma pequena iniciativa encontra uma resposta e se transforma.
Talvez seja justamente o encontro que permita que algo novo apareça.
Criatividade não precisa ser testada
Há uma delicadeza importante nesse pensamento.
Ao reconhecermos a criatividade como uma possibilidade ao longo de toda a vida, não precisamos transformá-la em mais uma capacidade a ser medida. Não se trata de perguntar: Essa pessoa ainda consegue criar?
Talvez seja mais interessante perguntar: Que condições podemos construir para que alguma coisa nova possa surgir aqui?
A diferença entre essas duas perguntas é importante. A primeira coloca a criatividade inteiramente sobre a pessoa e corre o risco de transformá-la em desempenho. A segunda inclui o ambiente, a relação, os instrumentos disponíveis, o tempo oferecido, a maneira como escutamos e a possibilidade de não sabermos antecipadamente qual será o resultado.
Talvez algumas pessoas precisem de mais tempo. Outras precisem de uma proposta.
Algumas talvez precisem que alguém comece. Outras podem precisar justamente que alguém espere. Criar condições para a criatividade talvez seja também aprender a perceber essas diferenças.
O direito de experimentar
Existe algo que considero especialmente importante quando pensamos no envelhecimento: continuar tendo o direito de experimentar. Experimentar pressupõe que nem tudo precisa dar certo.
Podemos tentar um instrumento e não gostar. Podemos começar uma música e abandoná-la.
Podemos cantar de outra maneira. Podemos inventar algo estranho. Podemos rir do que aconteceu. Podemos mudar de ideia.
Em outros momentos da vida, reconhecemos com facilidade o valor dessas experiências. Na infância, por exemplo, experimentar faz parte do próprio processo de conhecer o mundo. Mas talvez precisemos preservar essa possibilidade também na velhice.
Uma pessoa que viveu oitenta anos não precisa passar o restante de sua vida apenas repetindo aquilo que já conhece. Ela também pode encontrar aquilo que nunca encontrou. Pode aprender.
Pode descobrir. Pode começar.
A criatividade devolve ao envelhecimento algo que às vezes lhe é retirado: a possibilidade do inédito.
Uma pessoa idosa também pode começar
Talvez exista uma palavra que associemos pouco à velhice: começo.
Falamos de trajetória, experiência, legado, memória e continuidade. Todas essas palavras são importantes, mas uma pessoa idosa também pode começar alguma coisa. Pode começar a tocar um instrumento. Pode começar a cantar. Pode começar uma amizade. Pode começar uma pesquisa sobre si mesma. Pode começar uma pequena composição. Pode descobrir uma música que se tornará importante justamente agora. Pode encontrar uma maneira de se expressar que nunca havia experimentado. Nem todo começo precisa carregar a promessa de décadas pela frente para ser um começo verdadeiro. Algo pode começar e durar cinco minutos. Ainda assim, começou. Talvez a criatividade nos ajude justamente a reconhecer que o tempo vivido não elimina a possibilidade de inauguração.
Criar é também participar do mundo
Existe ainda outra dimensão da criatividade que talvez seja menos evidente. Criar não significa apenas produzir algo novo. Significa também participar. Quando alguém modifica uma música, escolhe um instrumento, propõe um ritmo ou transforma aquilo que outra pessoa estava fazendo, está interferindo no acontecimento. Sua presença produz diferença. Isso pode parecer pequeno, mas talvez seja profundamente importante.
Porque uma das experiências mais delicadas do envelhecimento pode ser justamente perceber que muitas decisões começam a ser tomadas por outras pessoas. Horários, cuidados, deslocamentos, alimentação, medicações, atividades e diferentes aspectos da vida cotidiana podem passar progressivamente para as mãos de familiares, cuidadores e profissionais.
Dentro desse contexto, os espaços nos quais alguém ainda pode escolher, propor, modificar e iniciar alguma coisa ganham outro significado.
Na experiência musical, uma pessoa pode perceber que aquilo que faz transforma aquilo que acontece. Ela toca e alguém responde. Ela para e a música muda. Ela escolhe e o encontro toma outro caminho. Talvez criar seja também uma maneira de dizer, mesmo sem palavras: eu ainda participo daquilo que acontece comigo.
O que ainda pode nascer?
Nos últimos Cadernos, tenho procurado pensar a musicoterapia com pessoas idosas não apenas a partir daquilo que se transforma ou se perde, mas também a partir daquilo que permanece, acontece e ainda pode tornar-se possível. Falamos de memórias que permanecem, da musicalidade da presença e da possibilidade de habitar o presente. Talvez a criatividade nos leve agora a uma pergunta seguinte: o que ainda pode nascer? Não sabemos. E talvez seja justamente por isso que a pergunta seja tão importante.
Pode nascer uma música, uma relação, uma brincadeira, uma pequena descoberta, uma nova maneira de tocar, uma resposta inesperada, um começo.
A musicoterapia pode tornar-se um espaço no qual a história de uma pessoa seja reconhecida sem que ela fique aprisionada àquilo que já viveu. Um espaço no qual memória e novidade possam coexistir, no qual uma canção antiga possa transformar-se e no qual uma pessoa possa continuar encontrando possibilidades que ainda não conhecia.
Envelhecer não significa deixar de ter passado. Mas também não precisa significar deixar de ter novidade. Talvez uma vida continue criativa enquanto ainda existir alguma possibilidade de responder ao mundo, transformá-lo e ser transformado por ele. Porque, mesmo depois de tantos anos de vida, o mundo ainda não terminou de acontecer conosco. E nós também não terminamos de acontecer no mundo.




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