Musicoterapia com pessoas idosas - Habitar o presente
Existem muitas maneiras de pensar o tempo quando envelhecemos. Existe aquilo que passou, as histórias vividas, as pessoas que encontramos, os lugares onde estivemos, as canções que atravessaram nossa vida e tudo aquilo que, de alguma maneira, participa daquilo que nos tornamos. Existe também o que ainda imaginamos, desejamos e esperamos. E existe um tempo que, justamente por estar tão próximo, talvez seja um dos mais difíceis de perceber: aquilo que está acontecendo agora.
Na musicoterapia com pessoas idosas, especialmente quando acompanhamos pessoas que vivem diferentes formas de demência, somos frequentemente convidados a olhar para o passado. Perguntamos sobre lembranças, cantamos músicas conhecidas, procuramos histórias, reconstruímos trajetórias e tentamos reconhecer aquilo que permanece. Tudo isso pode ser profundamente significativo e faz parte das possibilidades do cuidado.
Mas tenho me perguntado se existe também outro movimento possível.
E se, além de perguntarmos sobre aquilo que alguém consegue lembrar, começássemos a perguntar: o que podemos viver juntos agora?
Talvez uma pessoa já não consiga dizer exatamente onde está ou que dia é hoje. Talvez determinadas histórias tenham se tornado difíceis de acessar e algumas palavras já não cheguem com a mesma facilidade. Ainda assim, existe um encontro acontecendo. Existe uma respiração, um corpo, um olhar, uma possibilidade de escuta. Existe um som que começa, uma mão que se movimenta, uma música que ainda não existia e que pode nascer entre duas pessoas.
Existe um presente.
Mas talvez não seja suficiente apenas estar nele.
Talvez seja preciso aprender a habitá-lo.
Estar no presente e habitar o presente
Estar e habitar não são exatamente a mesma coisa.
Podemos estar em um lugar sem que aquele lugar se torne verdadeiramente uma experiência para nós. Podemos atravessar um instante sem encontrar nele possibilidades de relação, criação ou reconhecimento. Estar diz respeito à presença em determinado tempo e espaço; habitar parece exigir algo mais: uma possibilidade de construir relação com aquilo que está acontecendo.
Habitar um lugar é, de alguma maneira, poder existir nele.
Talvez possamos pensar algo semelhante em relação ao tempo.
Habitar o presente não significa compreender perfeitamente onde estamos, saber a data, organizar cronologicamente os acontecimentos ou conseguir narrar aquilo que está acontecendo. Essas capacidades podem ser importantes, mas não esgotam nossa possibilidade de experiência.
Podemos habitar um instante através de um olhar compartilhado, de uma sensação, de um movimento, de uma brincadeira, de uma música, de uma relação que se estabelece. Podemos não conseguir explicar aquele momento e, ainda assim, vivê-lo.
Essa diferença talvez seja especialmente importante quando pensamos em pessoas que vivem processos de demência. Muitas vezes existe um esforço legítimo para ajudá-las a se localizar no presente, reconhecer pessoas, lugares e acontecimentos. Mas talvez exista também outra pergunta possível: como podemos fazer deste presente um lugar em que essa pessoa possa estar em relação?
Não se trata apenas de trazê-la para o nosso presente.
Talvez se trate de encontrar um presente que possamos habitar juntos.
A música acontece agora
Existe algo muito particular na experiência musical que pode nos ajudar a compreender isso. Uma música pode carregar o passado inteiro consigo. Pode ter sido aprendida na infância, lembrar uma pessoa, uma casa, uma festa, um amor ou determinada época da vida. Uma única canção pode carregar décadas de história e, ainda assim, quando começa a soar, algo nela pertence inteiramente ao presente.
A canção pode ser antiga, mas o acontecimento musical é novo.
A melodia pode ser conhecida, mas aquela respiração, aquele olhar, aquele gesto, aquela maneira de escutá-la e aquela relação que se estabelece enquanto ela acontece nunca existiram exatamente daquela forma.
Talvez essa seja uma das grandes potências da música no trabalho com pessoas idosas: ela pode acolher o passado sem precisar permanecer nele. Pode trazer uma história e, ao mesmo tempo, produzir experiência. Pode recordar, mas também pode inaugurar.
Uma pessoa pode reconhecer uma canção que ouviu centenas de vezes ao longo da vida e, ainda assim, aquilo que acontece naquele encontro não é apenas uma repetição do que já aconteceu. Há algo sendo criado novamente.
A música, mesmo quando conhecida, precisa acontecer outra vez.
E acontece agora.
Nem todo encontro precisa recuperar alguma coisa
Quando acompanhamos processos de envelhecimento, existe frequentemente uma atenção necessária às transformações e às perdas. Perguntamos o que deixou de ser possível, o que precisa ser preservado, o que ainda pode ser estimulado e, em alguns contextos, o que conseguimos recuperar.
São perguntas legítimas e importantes. O problema talvez apareça quando elas se tornam as únicas perguntas possíveis.
Porque nem todo encontro precisa recuperar alguma coisa.
Às vezes, podemos simplesmente criar alguma coisa.
Pode ser uma pequena improvisação, um ritmo que nasce das mãos, uma conversa inesperada, uma brincadeira, uma pausa compartilhada ou uma música inventada naquele instante. Pode ser uma experiência pequena, aparentemente simples, mas que não existia antes daquele encontro.
Esse deslocamento modifica nossa maneira de perceber a pessoa idosa. Ela deixa de aparecer somente como alguém que possui um passado a ser preservado ou capacidades a serem mantidas e passa a ser reconhecida também como alguém que continua produzindo experiência, participando daquilo que acontece e interferindo no mundo ao seu redor.
Alguém para quem ainda existem acontecimentos inéditos.
O presente como lugar de criação
Talvez habitar o presente não signifique simplesmente permanecer nele, mas poder fazer dele um lugar possível de existência.
Na musicoterapia, isso pode significar não chegar ao encontro apenas com a intenção de provocar determinadas respostas. Podemos chegar também disponíveis para descobrir aquilo que ainda não sabemos que acontecerá.
Uma nota encontra outra nota, ou um tom encontro outro tom, um gesto modifica aquilo que estamos tocando, uma vocalização inesperada transforma-se em material musical, uma pausa muda o tempo do encontro. A pessoa pode propor alguma coisa sem precisar nomear aquilo como uma proposta, e o musicoterapeuta, ao reconhecer esse acontecimento, pode escutá-lo, acolhê-lo e responder musicalmente.
É justamente aí que algo importante acontece.
Já não estamos apenas fazendo música para alguém.
Também não estamos simplesmente tentando fazer com que alguém responda à nossa música.
Estamos fazendo alguma coisa existir entre nós.
Nesse sentido, habitar o presente é diferente de ocupar o mesmo espaço no mesmo momento. Duas pessoas podem estar juntas sem necessariamente construírem um encontro. Habitar parece começar quando aquilo que uma oferece pode encontrar alguma coisa na outra e quando, dessa relação, surge uma experiência que pertence às duas sem ser inteiramente determinada por nenhuma delas.
O presente deixa então de ser apenas o instante que passa.
Ele se torna um lugar de acontecimento.
Ainda existe futuro
Quando pensamos no envelhecimento, e principalmente nas demências, é muito fácil organizar o cuidado entre duas dimensões: aquilo que existia e aquilo que foi perdido. O passado passa a ocupar um espaço tão grande que uma terceira dimensão pode desaparecer do nosso campo de percepção.
Aquilo que ainda pode acontecer.
Talvez precisemos devolver à pessoa idosa também a possibilidade de futuro.
Não necessariamente um futuro distante. O futuro pode ser amanhã, daqui a uma hora, daqui a cinco minutos ou simplesmente a próxima nota.
Uma música pode começar sem que saibamos como terminará. Uma improvisação pode tomar um caminho inesperado. Um encontro pode produzir um sorriso que ninguém havia previsto. Uma pessoa pode tocar pela primeira vez um instrumento que nunca havia conhecido, inventar um som, modificar uma canção, criar um gesto ou surpreender alguém.
Pode surpreender-nos.
Enquanto alguma coisa ainda pode acontecer, existe possibilidade.
E talvez seja importante lembrarmos disso: uma pessoa idosa continua sendo alguém diante do futuro, mesmo quando esse futuro precisa ser percebido em escalas menores e mais próximas.
Memória, presença e possibilidade
Podemos então imaginar três dimensões que se atravessam continuamente: memória, presença e possibilidade.
A memória diz respeito àquilo que foi vivido e que, de inúmeras maneiras, continua participando de quem somos. A presença diz respeito ao que pode ser vivido agora, ao encontro que está acontecendo e às formas pelas quais conseguimos estar em relação. A possibilidade aponta para aquilo que ainda não aconteceu, mas que pode nascer a partir desse encontro.
Nenhuma dessas dimensões precisa excluir a outra.
A memória pode chegar ao presente. O presente pode transformar a maneira como uma memória é vivida. E aquilo que acontece agora pode inaugurar algo que ainda não existia.
A música atravessa essas três dimensões de uma maneira muito particular. Uma canção pode trazer uma lembrança, tornar-se encontro e, no próprio encontro, produzir alguma coisa nova.
Talvez seja justamente por isso que ela possa se tornar um território tão fértil para o cuidado.
Não procurar alguém somente no passado
Quando uma pessoa começa a perder determinadas lembranças, podemos sentir uma necessidade profunda de procurá-la naquilo que ela foi: nas histórias que contava, nas coisas que fazia, nas pessoas que reconhecia, na maneira como costumava falar, agir ou se relacionar.
Essa procura muitas vezes nasce do amor. Queremos reencontrar alguém que conhecemos.
Mas existe uma delicadeza importante nesse movimento. Se procurarmos essa pessoa apenas no passado, talvez deixemos de perceber quem está diante de nós agora.
Ela continua ali, ainda que transformada. Talvez com outros tempos, outras possibilidades, outras formas de comunicação e outras maneiras de entrar em relação. Encontrá-la no presente não significa abandonar quem ela foi, mas reconhecer que sua existência não terminou na última lembrança que conseguimos compartilhar.
Talvez cuidar também seja isso: conseguir encontrar alguém onde essa pessoa pode estar agora, sem exigir continuamente que retorne ao lugar onde nós ainda conseguimos reconhecê-la.
E talvez essa seja uma das diferenças mais profundas entre estar e habitar.
Estar pode acontecer sozinho. Habitar pressupõe relação.
Para que um presente seja habitável, talvez seja necessário que exista nele algum espaço de reconhecimento, participação, acolhimento e possibilidade.
Habitar juntos
Habitar o presente, portanto, não significa negar aquilo que passou, abandonar a memória ou deixar de reconhecer perdas, sofrimentos e dificuldades. Significa não permitir que aquilo que se perdeu seja a única medida daquilo que ainda existe.
Talvez cuidar de uma pessoa idosa seja também aprender outra relação com o tempo: reconhecer sua história e acolher suas memórias, respeitar aquilo que se transformou e, ao mesmo tempo, continuar disponível para aquilo que ainda pode nascer.
Em vez de perguntarmos somente “do que você se lembra?”, talvez possamos acrescentar outra pergunta:
“O que podemos viver juntos agora?”
Porque enquanto existe encontro, alguma coisa ainda pode acontecer. Uma música pode começar, um gesto pode encontrar resposta, um silêncio pode ser compartilhado, uma pequena invenção pode surgir. Podemos rir de alguma coisa que nunca havia acontecido antes ou criar juntos uma música que não pertence a nenhuma lembrança porque pertence àquele instante.
Talvez seja isso que a música continuamente nos ensine: mesmo quando carrega o passado, ela precisa nascer novamente cada vez que é tocada. Não conseguimos guardar uma música no presente. Precisamos fazê-la acontecer.
Cada nota acontece agora, mas abre caminho para a próxima.
Cada silêncio acontece agora, mas contém expectativa.
Cada encontro acontece agora, mas pode transformar aquilo que virá depois.
Habitar o presente talvez seja, portanto, mais do que permanecer no agora. É conseguir fazer do agora um lugar onde a vida ainda possa acontecer.
Nesse horizonte, a musicoterapia com pessoas idosas talvez possa assumir também esta tarefa: não apenas ajudar alguém a recordar a vida que viveu, mas continuar criando condições para que a vida possa ser vivida.
Não apenas estar diante de alguém.
Mas habitar um tempo com alguém.
Aqui, agora e ainda.




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