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Musicoterapia com pessoas idosas - Paisagens do envelhecer

O envelhecimento costuma ser descrito a partir das perdas.


Perda da memória. Da velocidade. Da força. Da autonomia. Da saúde.


Com frequência, essas transformações passam a organizar também a maneira como a sociedade olha para as pessoas idosas. Pouco a pouco, a velhice deixa de ser percebida como uma etapa da existência repleta de possibilidades e passa a ser compreendida quase exclusivamente a partir daquilo que já não é mais possível.


Essa perspectiva produz consequências importantes.


Quando olhamos apenas para aquilo que diminui, corremos o risco de deixar de perceber tudo aquilo que continua vivo.


Na prática clínica, essa lógica também pode aparecer.


Não é raro que o envelhecimento seja acompanhado principalmente por perguntas relacionadas aos déficits, aos diagnósticos e às perdas funcionais. Essas questões são legítimas e merecem toda a atenção da clínica. Mas talvez não sejam suficientes para compreendermos a experiência de envelhecer em toda a sua complexidade.


Talvez possamos formular outra pergunta:

Como continua acontecendo o desenvolvimento humano ao longo da velhice?


Se compreendemos o desenvolvimento humano apenas como aquisição de novas habilidades, é natural imaginar que ele diminua com o avanço da idade.


Mas talvez o desenvolvimento possa ser entendido de maneira mais ampla. Desenvolver-se não significa apenas aprender aquilo que ainda não sabemos fazer. Significa continuar ampliando as formas pelas quais nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo.


Continuar produzindo presença.

Continuar descobrindo sensibilidades.

Continuar criando vínculos.

Continuar atribuindo sentidos às experiências vividas.

Continuar sendo afetado.

Continuar transformando-se.


Nesse horizonte, a velhice deixa de representar o encerramento do desenvolvimento humano.


Ela passa a revelar outras formas de desenvolvimento.


É justamente nesse ponto que a experiência musical revela uma de suas maiores singularidades.


A música não exige apenas desempenho. Ela acolhe diferentes modos de participação.


É possível cantar.

Escutar.

Improvisar.

Lembrar.

Inventar.

Silenciar.

Mover-se.

Compartilhar.

Habitar uma canção.

Reconhecer um gesto sonoro.

Ou simplesmente permanecer na presença de outra pessoa através da música.


A musicalidade humana não desaparece porque envelhecemos.


Ela continua encontrando novas formas de expressão.


Essa perspectiva torna-se particularmente importante quando pensamos nas pessoas que vivem com diferentes formas de demência, incluindo a doença de Alzheimer.


À medida que algumas memórias se tornam menos acessíveis e determinadas capacidades se modificam, é comum que a própria identidade da pessoa passe a ser percebida quase exclusivamente a partir daquilo que foi perdido.


Entretanto, a experiência clínica frequentemente revela outra realidade.


Mesmo quando a memória narrativa se fragiliza, continuam existindo possibilidades de encontro.


Continuam existindo afetos.

Gestos.

Ritmos.

Olhares.

Canções reconhecidas.

Improvisações inesperadas.

Sorrisos.

Momentos de humor.

Experiências de presença compartilhada.


A música não devolve uma pessoa ao passado.

Ela pode ajudá-la a continuar habitando o presente.


Cultivar experiências musicais ao longo da vida significa também cultivar repertórios de presença, relação, criatividade e participação que permanecem disponíveis mesmo quando outras capacidades se transformam.


Envelhecer não interrompe o desenvolvimento humano.


Apenas transforma suas paisagens.


É nesse horizonte que venho compreendendo a musicoterapia com pessoas idosas: não como uma prática voltada apenas para enfrentar perdas, mas como um encontro comprometido com tudo aquilo que continua podendo nascer, florescer e transformar-se ao longo da vida.


 
 
 

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