Musicoterapia com pessoas idosas - Paisagens do envelhecer
- Centro de Musicoterapia de Santos
- 28 de jul.
- 2 min de leitura
O envelhecimento costuma ser descrito a partir das perdas.
Perda da memória. Da velocidade. Da força. Da autonomia. Da saúde.
Com frequência, essas transformações passam a organizar também a maneira como a sociedade olha para as pessoas idosas. Pouco a pouco, a velhice deixa de ser percebida como uma etapa da existência repleta de possibilidades e passa a ser compreendida quase exclusivamente a partir daquilo que já não é mais possível.
Essa perspectiva produz consequências importantes.
Quando olhamos apenas para aquilo que diminui, corremos o risco de deixar de perceber tudo aquilo que continua vivo.
Na prática clínica, essa lógica também pode aparecer.
Não é raro que o envelhecimento seja acompanhado principalmente por perguntas relacionadas aos déficits, aos diagnósticos e às perdas funcionais. Essas questões são legítimas e merecem toda a atenção da clínica. Mas talvez não sejam suficientes para compreendermos a experiência de envelhecer em toda a sua complexidade.
Talvez possamos formular outra pergunta:
Como continua acontecendo o desenvolvimento humano ao longo da velhice?
Se compreendemos o desenvolvimento humano apenas como aquisição de novas habilidades, é natural imaginar que ele diminua com o avanço da idade.
Mas talvez o desenvolvimento possa ser entendido de maneira mais ampla. Desenvolver-se não significa apenas aprender aquilo que ainda não sabemos fazer. Significa continuar ampliando as formas pelas quais nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo.
Continuar produzindo presença.
Continuar descobrindo sensibilidades.
Continuar criando vínculos.
Continuar atribuindo sentidos às experiências vividas.
Continuar sendo afetado.
Continuar transformando-se.
Nesse horizonte, a velhice deixa de representar o encerramento do desenvolvimento humano.
Ela passa a revelar outras formas de desenvolvimento.
É justamente nesse ponto que a experiência musical revela uma de suas maiores singularidades.
A música não exige apenas desempenho. Ela acolhe diferentes modos de participação.
É possível cantar.
Escutar.
Improvisar.
Lembrar.
Inventar.
Silenciar.
Mover-se.
Compartilhar.
Habitar uma canção.
Reconhecer um gesto sonoro.
Ou simplesmente permanecer na presença de outra pessoa através da música.
A musicalidade humana não desaparece porque envelhecemos.
Ela continua encontrando novas formas de expressão.
Essa perspectiva torna-se particularmente importante quando pensamos nas pessoas que vivem com diferentes formas de demência, incluindo a doença de Alzheimer.
À medida que algumas memórias se tornam menos acessíveis e determinadas capacidades se modificam, é comum que a própria identidade da pessoa passe a ser percebida quase exclusivamente a partir daquilo que foi perdido.
Entretanto, a experiência clínica frequentemente revela outra realidade.
Mesmo quando a memória narrativa se fragiliza, continuam existindo possibilidades de encontro.
Continuam existindo afetos.
Gestos.
Ritmos.
Olhares.
Canções reconhecidas.
Improvisações inesperadas.
Sorrisos.
Momentos de humor.
Experiências de presença compartilhada.
A música não devolve uma pessoa ao passado.
Ela pode ajudá-la a continuar habitando o presente.
Cultivar experiências musicais ao longo da vida significa também cultivar repertórios de presença, relação, criatividade e participação que permanecem disponíveis mesmo quando outras capacidades se transformam.
Envelhecer não interrompe o desenvolvimento humano.
Apenas transforma suas paisagens.
É nesse horizonte que venho compreendendo a musicoterapia com pessoas idosas: não como uma prática voltada apenas para enfrentar perdas, mas como um encontro comprometido com tudo aquilo que continua podendo nascer, florescer e transformar-se ao longo da vida.




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